Foi há pouco mais de dois anos que, no dia em que as Festas de São Pedro voltaram a acontecer, a antiga Central Termoelétrica reabriu como Central das Artes, apresentando quatro exposições diferentes: a de escultura “Step by Stone” de Luís Amado, a de pintura “Sopro Emergente” de Marta de Castro, “Carvão, Comboios e Carros – Memórias de um tempo de aspirações” e “Marchas Populares – Gerações de Criatividade” – estas duas últimas organizadas pela Câmara Municipal de Porto de Mós.

Edifício Central das Artes Créditos: Mariana Pragosa
Luísa Gaspar, responsável pela conservação e restauro deste espaço, fala sobre como este sítio se reformulou, pois só há relativamente poucos anos é que se conhece a Central das Artes como ela é: “Foi aqui neste espaço que se desenvolveu a central termoelétrica, ou seja, foi onde se fez a queima do carvão que existia cá. No entanto, íamos buscar matérias primas a Alcanadas, no concelho da Batalha, e isso fez com que existissem mais postos de trabalho, assim como iluminação pública. Ou seja, foi de grande desenvolvimento para o Concelho de Porto de Mós”. O edifício acabou por ser abandonado durante vários anos, depois de albergar vários projetos têxteis, entre outros projetos que acabaram por se desmoronar. “Aqui ficou um edifício abandonado, praticamente ficou só a estrutura e mais nada” , conta Luísa.
Foi por volta do ano 2012 que se voltou a pensar naquele local esquecido: “Começou-se a pensar em requalificar-se o espaço, conseguiu-se, houve um subsídio, recuperamos e hoje é um espaço de exposições”.
De maio a novembro a Central das Artes recebe uma exposição que retrata as colónias portuguesas, que advém da junção de Portugal, com Cabo-Verde, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe e Timor Leste. “ Estamos a comemorar os 50 anos do 25 de abril e nada melhor que esta exposição ter as nossas colónias no pós 25 de abril”.
À entrada da exposição encontram-se roteiros turísticos e indicações que ajudam as pessoas a compreender o que está exposto, assim como o roteiro que devem seguir para a melhor compreensão nesta aventura transnacional. Uma ideia programada em 2023, que se concretizou este ano, e que conta com a ajuda do vereador Eduardo Amaral e do ex-ministro dos negócios estrangeiros, Luís Amado. Esta exibição colonial está divida em três salas, “sendo elas as conexões ancestrais, que se exibe na primeira sala, as identidades partilhadas, mostrada na segunda sala e a liberdade e transformação expressa na terceira sala”.

“Porto de Nós” Créditos: Mariana Pragosa

“Porto de Nós” Créditos: Mariana Pragosa
Das mais diversas exposições que a Central das Artes já efetuou, recordam-se agora as mais importantes. “O ex libris podemos dizer que foi a de carros, uma de carros fabricados totalmente em Portugal no início dos anos 50.”. Afirma ainda que “todas são diferentes mas todas chamam público, todas elas diferentes públicos”. O intuito da Central é mesmo esse, cativar vários tipos públicos.
Aos visitantes cria-se a curiosidade e a incerteza do que podem encontrar. Uma exposição desta dimensão ajuda a compreender as confluências internacionais e a importância que têm na sociedade.
O objetivo é compreender “a mistura das diferentes artes, é perceber o que é que cada obra transmite, quais as ligações entre Portugal e África e estimular um pensamento crítico”. Em toda a visita se ouviu um pequeno som. “Estamos a ouvir o barulho do mar e se eu não lhe explicar fica sem saber o porquê, é por estar distante das colónias, é por mar? É porque este autor cabo-verdiano, Carlos de Noronha, tem a família de lá e vive em Portugal. Por este motivo quis criar o som do mar que o separa da família. Assim como, nesta parede ,observavam-se coordenadas. Uma representa as coordenadas exatas onde está a família e a outra é as coordenadas de onde ele vive em Lisboa.”. Existe a distância espacial, mas não há a emocional, o som traz proximidade.
Dentro da sala de exposição existem diversos aspectos representativos dos locais retratados, como tapetes, sofás personalizados, barro figurativo, painéis ilustrativos e ainda quadros que representam a história e cultura transmitida. Também um sofá que, à primeira vista é apenas isso. No entanto, o Sofá é de uma artista visual portuguesa, Joana Vasconcelos, e que se apresenta através de diversas caixas de comprimidos de aspirina. A sua execução acontece porque a aspirina ajuda nas dores temporárias, mas as dores da saudade e do pensamento não passam. Há dores que podem ser curadas com comprimidos, no entanto as dores do coração, como a saudade e emoção, não podem ser tratadas dessa forma. Joana representa assim num sofá a junção da ciência com a arte.
Em cima de um púlpito aparece uma figura em barro não figurativo, no entanto esta autora agarrou nele e criou a sua própria história. Como muitos dos autores destas obras da exposição decidiu não dar um nome ao seu projeto, pois na arte as coisas não precisam de estar intituladas para terem o seu devido valor.
Esta exposição serve como reflexão ao pensamento crítico, sendo que cada indivíduo tem uma experiência diferente, com as diversas formas de sentir. A Central pede desta forma que cada visitante marque a sua visita atempadamente, para que possa ser acompanhado por um guia que proporciona uma melhor compreensão dos elementos.

Barro figurativo Créditos: Mariana Pragosa

Sofá feito com aspirinas Créditos: Mariana Pragosa
Ao longo de toda esta visita diversos componentes cativaram a atenção, como é exemplo disso os fusos.“Representam o fuso a linha, pois para eles o algodão é a chuva que eles não tem, é a riqueza deles. Sendo que lá existe um recurso a água muito escasso. Muitas vezes tem que retirar a água que tem no algodão, mesmo que pouca, porque é uma matéria prima que lhes dá dinheiro”.
Esta apresentação designa-se “Porto de Nós”, porque transcende o nacional, é de nós cá para fora, o “intuito da Central é mesmo esse, cativar vários tipos públicos.”
O gestor da Central quer fazer exposições com sentido, exposições que apresentam temas interessantes e que tragam indivíduos ao concelho. Se interligar as suas exposições com uma data comemorativa tanto a nível nacional, como local, melhor.
“Este edifício ainda fica limitado ao concelho talvez, mas trabalhamos para fora. Temos condições suficientes para receber todo o tipo de pessoas, por exemplo se alguém precisar de uma sala ou de um espaço para apresentar algo ou um local a central das artes tem os braços abertos, basta ir ao portal, pede uma senha, dão-lhe uma senha e se estiver disponível nós estamos abertos e é gratuita.”, afirma Luísa Gaspar..
Remata com a frase: “A arte é fundamental para um pensamento crítico”.

Momento artístico através de luz Créditos: Mariana Pragosa

Demonstração dos pés cansados Créditos: Mariana Pragosa

Projeto de crianças “individualismo” Crédito: Mariana Pragosa

Beyond Boundaries Créditos: Mariana Pragosa
Por Mariana Pragosa (aluna do 3ºano, da Licenciatura em Comunicação Social: Jornalismo e Comunicação Empresarial, da Escola Superior de Tecnologia de Abrantes)
