A iniciativa “Apadrinha uma Oliveira” não só resgata oliveiras abandonadas, como promove a produção sustentável de azeite e a criação de empregos na região. Jéssica Oliveira, uma das responsáveis pelo projeto, explica que o objetivo é ambicioso: recuperar 10 mil oliveiras.

Em Abrantes, e nas regiões ao redor da cidade, existem 2 mil hectares de olival abandonado, algo que equivale a 2800 campos de futebol. A área em causa está bastante exposta a um elevado risco de incêndio, algo que pode ser devastador. No projeto “Apadrinhe uma Oliveira”, a principal missão é recuperar olivais abandonados e garantir a continuidade da biodiversidade na região.
O projeto surgiu a partir de uma iniciativa espanhola chamada, “Apadrina un Olivo”, que começou em 2014. Devido ao sucesso deste projeto espanhol, João Rijo, diretor executivo do projeto, decidiu replicar essa ideia e aproveitou a oportunidade na região de Abrantes. O responsável percebeu o potencial da oportunidade que tinha em mãos e foi em frente com os princípios de revitalizar a economia local e preservar o património natural.
O projeto existe há pouco mais de um ano, e começou pela necessidade de solucionar algumas problemáticas em Abrantes. Primeiro, o abandono dos olivais que fazem parte da paisagem natural da região, e que resulta do facto de muitos proprietários deixarem a terra para viver nas grandes cidades ou de já não terem a capacidade física para tomar conta dos terrenos.
Outra problemática surgiu com o fecho da central do Pego em 2021. Muitos trabalhadores ficaram sem emprego (mais de 100), o que motivou a Endesa, que ganhou o projeto de transição justa em Abrantes, a dinamizar o projeto “Apadrinha uma Oliveira”. Um dos objetivos é a criação de postos de trabalho, dando sempre prioridade aos ex-trabalhadores da central ou a trabalhadores desempregados de longa duração. Com este projeto já foi possível abrir mais cinco postos de trabalho.
Entre os principais objetivos do projeto destaca-se a promoção da sustentabilidade, a preservação do património natural da região, a reabilitação de oliveiras e a criação de postos de trabalho, oferecendo a oportunidade de melhorar a vida das pessoas e de preservar a captação de CO2. Recorde-se que muitas oliveiras da região são centenárias, o que lhes permite captar uma maior quantidade de CO2 e prevenir os incêndios, através da limpeza dos terrenos. Outro dos objetivos é a plantação da oliveira Galega, que faz parte da região.

Impacto na comunidade
Este projeto tem grande impacto na comunidade, tanto em benefícios económicos como sociais na região de Abrantes.
No que se refere aos benefícios sociais, destacam-se a preservação e criação de postos de trabalho. O projeto mantém uma boa relação com a ACROM (Associação Cultural da Rota das Mouriscas), através da qual os responsáveis do projeto pretendem criar uma rota das oliveiras centenárias, mas também uma proximidade com o município, e com a Tagus Ribatejo Interior.
Muitos proprietários têm consciência de que o seu olival está abandonado e têm anualmente gastos com a limpeza. Com este projeto, é possível fazer um contrato de cedência do terreno, garantindo a manutenção do olival sem custos. “Dependendo do estado do olival, a partir do 2º ou do 6º ano , o proprietário recebe 10%, de uma percentagem da produção ”, explica Jéssica Oliveira.
Durante todo este processo, as oliveiras ficam identificadas, com um QrCode e, a partir dessa identificação, são recolhidas fotos das oliveiras, e começa a ser feita a intervenção, dependendo sempre da altura do ano. Com o QrCode é possível também saber onde está a oliveira, o que é útil se algum padrinho quiser visitar a árvore.
Processo de apadrinhamento
Qualquer pessoa pode apadrinhar uma Oliveira, e para isso basta aceder ao site, “apadrinhaumaoliveira.org”, e escolher a oliveira que mais lhe chama à atenção.

O apadrinhamento tem um custo anual entre 35 e 60€, e com isso o padrinho consegue dar o nome à sua oliveira, recebe o certificado de apadrinhamento, durante o ano vai conseguir acompanhar pelo registo fotográfico a recuperação dessa oliveira, e pode visitar a sua oliveira sempre que quiser.
No ano seguinte, os padrinhos recebem o agradecimento por fazerem parte da associação, com um ou dois litros de azeite proveniente das oliveiras.
Jéssica Oliveira revela ainda que “existem duas celebridades que se juntaram ao projeto, antigas apresentadoras, como Ana Milhazes e Luisa Barbosa”. O projeto quer tentar chegar a pessoas famosas para que também eles consigam ter conhecimento da iniciativa, e para contribuam para a sua divulgação.
Testemunhos e histórias pessoais

No coração do projeto para recuperar e preservar olivais históricos, os responsáveis do projeto encontraram um apoio valioso nos testemunhos dos padrinhos. Cada história é uma fonte de inspiração, e mostra o impacto e o carinho que este projeto tem criado.
Estas são algumas das mensagens quando falámos com cada padrinho e madrinha ao telefone, e que destacam o entusiasmo e a dedicação de cada um.
Ana Maria Rodrigues: um presente com significado
A Joana viu na nossa iniciativa a oportunidade ideal para oferecer um presente especial à mãe, que é apaixonada por oliveiras. Ao apadrinhar uma oliveira, a Ana não só promoveu a recuperação de uma árvore natural da paisagem portuguesa, como também o seu gesto tocou o coração. A mãe da Joana adorou a ideia de receber um presente e, com isso, contribuir para o bem ambiental sem acumular mais objetos.
Rui Sequeira: uma homenagem e um legado
Rui Sequeira escolheu apadrinhar em memória da mãe que faleceu há poucos anos. Foi com o seu nome que batizou esta oliveira. Para Rui, a oliveira não é apenas uma árvore, mas uma homenagem duradoura à mãe e uma forma de apoiar a recuperação de terrenos abandonados ao mesmo tempo que se criam postos de trabalho locais.
Bárbara Silva: uma ligação pessoal à terra
Para Bárbara Silva, o apadrinhamento de uma oliveira tem uma ligação muito pessoal. A mãe de Bárbara herdou terrenos na região, que foram vendidos por dificuldades de manutenção, mas a ligação com a terra permanece forte. Bárbara vê a oliveira como um símbolo de continuidade e esperança para as futuras gerações, por isso ofereceu o apadrinhamento de uma oliveira a cada um dos filhos.
António Amaral: um encontro com a tradição
António Amaral, com a sua paixão pela preservação e recuperação de oliveiras, vê o projeto como uma forma de manter vivas tradições. Recentemente, António teve a oportunidade de explorar a região de Abrantes e está entusiasmado com a ideia de uma futura visita à rota das oliveiras centenárias. Diz-nos que acredita que, ao apoiar o nosso projeto, está a preservar um património cultural e ambiental significativo.
Márcia Mendes e o filho Pedro: ligar famílias através das oliveiras
“Ofereci uma oliveira à minha mãe, que mora no Brasil e é apaixonada por azeite.” Para Pedro foi uma maneira especial de ligar a família com as tradições portuguesas e fazer algo significativo. “Estamos a pensar em visitar-vos, e a experiência está a ser muito positiva. A ideia de deixar uma herança duradoura, como uma oliveira, é algo que a minha mãe e eu apreciamos muito.”
Jorge Santos: um compromisso com o património natural
Descobriu o projeto através de um amigo e decidiu de imediato que tinha de apadrinhar uma oliveira. Sempre que viaja pelo país vê muitos olivais e acha que não lhes damos o devido valor. Acredita nos projetos sustentáveis e acredita que o apoio, que todas as pessoas podem dar, é que torna os projetos possíveis. Acompanha-nos no instagram e gosta de ver o resultado da sua contribuição, a sensação de que não nos esquecemos dele. Acha muito positivo ver as coisas a acontecer.
Por Bernardo Tomaz (aluno do 3ºano, da Licenciatura em Comunicação Social: Jornalismo e Comunicação Empresarial, da Escola Superior de Tecnologia de Abrantes
