Os próximos 12 dias da agenda cultural portuense vão estar dedicados à Sétima Arte a propósito da celebração do primeiro aniversário do Cinema Trindade, cuja reabertura aconteceu a 5 de fevereiro de 2017. A promessa da Nitrato Filmes, responsável pelo projeto, é de garantir uma antestreia por dia até 16 de fevereiro.
No cartaz do pequeno festival de cinema não oficial não faltarão as novidades, filmes portugueses, produções vindas do Brasil (é o país convidado) e um olhar atento ao repertório do realizador Carlos Nader, o artista em foco. Entre as muitas antestreias contam-se títulos como Olhares Lugares, de Agnès Varda e JR, Pequena Grande Vida, de Alexander Payne, O Monstro de Mil Cabeças, de Rodrigo Plá, ou o nacional Ramiro, de Manuel Mozos.
Do outro lado do oceano Atlântico chegam cinco longas-metragens de vários géneros e algumas – como Jogo das Decapitações, de Sergio Bianchi – produzidas em parceria com Portugal. Destaque para Super Orquestra Arcoverdense de Ritmos Americanos, de Sérgio Oliveira, um documentário em tom fabular que aborda a desigualdade na sociedade brasileira – a projeção está agendada para quarta-feira, dia 7, às 19h30. Pode consultar a programação completa no site oficial.
Do abandono às sessões diárias
A histórica sala de cinema de rua foi inicialmente inaugurada em 1913 como Salão Jardim da Trindade, um espaço que reunia uma sala de espetáculos com cinema, mesas de bilhar, café, um salão de festas e um terraço. Tornou-se, rapidamente, um local de preferência para encontros sociais e culturais, um verdadeiro sucesso entre as gentes do Porto.
Sofreu renovações na década de 50, altura em que ganhou uma plateia e um balcão de cinema que deram origem à denominação que prevaleceu até aos dias de hoje: Cinema Trindade. Contudo, a sala portuense atravessou dificuldades nos anos 70 e 80, perdeu clientes e foi, nos últimos dez anos do século, transformado numa sala de bingo onde a Sétima Arte deixou de ter destaque. Não resistiu à crise e encerrou as portas em 2000.
Ao fim de quase duas décadas, quando ninguém pensava voltar a assistir a filmes no Trindade, um empresário ligado ao cinema decidiu recuperar o espírito do icónico edifício na baixa do Porto. É Américo Santos, fundador da Nitrato Filmes, quem hoje garante que “reabrir um cinema de rua parecia uma aventura, uma ideia demasiado romântica, mas tem sido surpreendente”, diz à Lusa a propósito do primeiro aniversário do espaço.
Não foi fácil. O projeto de recuperação foi sendo atrasado por problemas com a empreitada e com o caderno de encargos, adiando a data de inauguração de novembro de 2016 para janeiro de 2017. Acabou por abrir a 5 de fevereiro com duas salas e mais de 300 lugares por onde passaram, nos últimos 12 meses, mais de 50 mil espetadores.
Um dos segredos para o sucesso foi a aposta em quatro sessões diárias, durante toda a semana, com uma programação normal e temática que ajudou a conquistar o público. Além disso, a integração no Tripass – cartão de descontos para o Trindade, Passos Manuel e Teatro Municipal do Porto (que inclui Rivoli e Campo Alegre) – também deu um empurrão. Mas no final de contas, diz Américo, é a cidade que fica com os louros: “os portuenses agarraram a sala”.
