Não é segredo para ninguém que a cozinha portuguesa já não é o que era. O aumento do interesse no consumo nas cadeias de fast food, devido ao seu preço e rápido serviço, tem ajudado várias “casas” a fechar portas.
No interior de Portugal, a situação da restauração nacional está em declínio. O interior, sempre conhecido pela sua “dureza” e ligação forte às tradições, tem visto ano após ano as suas “casas” de seleção com cada vez menos pessoas.

Tradição rural portuguesa em exposição
A visita à Golegã
A Golegã, uma vila no meio do distrito de Santarém com cerca de 6 mil pessoas, tem sido das menos afetadas pelos restaurantes de fast food. Guilherme Delgado, um jovem de 20 anos que viveu a sua vida inteira na Golegã, revela que desde pequeno que os seus pais o instruiram a abraçar a sua cultura, a cultura ribatejana e que, mesmo em pequeno, eram raras as vezes em que ia jantar ou almoçar ao McDonalds ou a outro restaurante de “comida de plástico”. Agora que já está no ensino superior, no Instituto Politécnico de Tomar, no curso de Informática, o próprio admite que a sua tendência em consumir em restaurantes como McDonalds ou Burger King tem crescido nos últimos ano. “Sendo honesto, é mais barato, rápido e sabe bem…é mais eficiente”, afirma Guilherme.
A poucos metros de onde conversámos com Guilherme, ainda na Golegã, encontramos o Cú da Mula.

Mural feito à mão sobre o “Cú da Mula”
Adega Típica Cú da Mula, uma espécie em extinção
“Adega Típica Cú da Mula”, como assim se diz, é, para muitos goleganenses, o seu restaurante de seleção. O dono desta casa, Nélson Jesus, veio da Madeira para Tomar, quando encontrou uma propriedade de valor na Golegã, e então, nasceu o Cú da Mula.
“O nome Cú da Mula é especial. Existia neste local um curral de mulas e, um dia, o dono da casa meteu duas mulas ao pé da pipa de onde tirava o vinho para servir a classe operária, mas epah, numa das mulas só se reparava no traseiro. E, de boca em boca, batizou-se o lugar”, contou Nélson sobre o nome curioso do seu restaurante.
Num Portugal cada vez mais sobrelotado de restaurantes de cadeias internacionais, o Cú da Mula continua “em altas”, sem sinais de abrandamento. No entanto, Nélson admite que as gerações mais novas “só gostam de comer lixo” e que não estão habituados a apreciar umas enguias fritas ou uma bela feijoada.
Sobre a sua clientela, Nelson desabafa: “Uma coisa que eu tenho….é que tenho a minha clientela comigo. Há 30 e tal anos que eu estou aqui, há 30 e tal anos que estão comigo. Os fiéis à casa. É verdade.”
Em relação aos preços, já que para muitos jovens, como Guilherme, fica mais em conta ir a ao McDonalds de Torres Novas, do que almoçar no Cú da Mula, Nélson é peremptório: “Comer na minha casa por 12 ou 13 euros fica mais em conta do que ir a um Kebab ou Burger King por 8 ou 9. A comida é ‘verdadeira’ e o serviço à mesa, que eles não têm, isso a nós, restaurantes a sério, ninguém nos tira”.
No McDonalds existem Menus Poupança, onde o cliente pode pedir um hamburguer por um preço mais acessível, coisa que numa casa típica, é impossível acontecer. “Eu não posso fazer um bitoque por 5 euros! E não posso cobrar 2 ou 3 euros por um peixe frito. Aqui come-se comida, não plástico, porque isso é barato”.
Por Daniel Pimpão (aluno do 3ºano, da Licenciatura em Comunicação Social: Jornalismo e Comunicação Empresarial, da Escola Superior de Tecnologia de Abrantes)
