Cristina Pedra, vereadora da cultura madeirense, reforça todos os anos que a ilha da Madeira é marcada pelas suas festividades, como a Festa da Flor que celebra a primavera com desfiles e tapetes de flores naturais. Para complementar, nunca pode faltar a música tradicional, o Bailinho da Madeira e a dança folclórica que são sempre elementos centrais nas celebrações locais.
São vários os habitantes da Madeira que anseiam a chegada da primavera, “a festa que dá cor às ruas do Funchal e desperta a criatividade humana”, afirma Cristina Pedra. A Festa da Flor é uma das tradições mais icónicas da ilha da Madeira, que ocorre geralmente em abril ou maio, e simboliza a renovação e a esperança. Esta tradição marca a chegada da primavera e, segundo Cristina Pedra “é considerada um verdadeiro espetáculo de cores e aromas”. O evento tem a duração de quatro dias e a parte mais conhecida é o Cortejo da Festa da Flor, que junta centenas de dançarinos (de todas as idades), com fatos cheios de flores naturais onde os mesmos ao som da música acompanham os seus carros alegóricos decorados com todo o tipo de flores naturais pelas ruas do Funchal: “É um orgulho ver tantos jovens cada vez mais interessados em participar nesta festa”.

Carro alegórico da Festa da Flor Créditos: Visit Madeira

Desfile da Festa da Flor Créditos: Visit Madeira

Tapete das flores Créditos: Visit Madeira
No sábado, reforça a vereadora, “os mais pequenos tornam-se protagonistas da cerimónia” participando na construção do “Muro da Esperança”. Centenas de meninos e meninas adicionam flores coloridas numa parede natural verdejante como um sinal de esperança por um mundo melhor.

Cerimónia do muro da esperança Créditos: Visit Madeira
Fachos
Miguel Vieira faz parte da tradição secular dos fachos desde pequeno e atualmente é dos principais organizadores dos fachos da cidade de Machico, da ilha da Madeira. “Só quem cá está, sabe o trabalho que dá: a tradição dos fachos é uma prática comunitária que faz parte da cultura popular da Freguesia de Machico(…). Já somos uma família”, referiu.
É uma festa única na Madeira e está associada à Festa do Santíssimo Sacramento que ocorre no último fim de semana de agosto.
Durante os séculos XVII e XVIII, o arquipélago da madeira era alvo de ataques e pilhagens pelos piratas, dirigidos aos núcleos populacionais localizados junto ao mar. Como forma de proteção, o povo elaborava os chamados “fachos”, ou seja, pequenas fogueiras localizadas no topo da montanha e pontos elevados, visíveis a grande distância, com o intuito de alertar e preparar a defesa da população. Estes fachos, que eram colocados a arder, “comunicavam” com outros que estavam localizados noutras freguesias, chegando a percorrer as duas ilhas: Madeira e Porto Santo
Atualmente, perdidos a sua função inicial de avisar a população, os fachos foram adaptados e incorporados nas festas religiosas adquirindo outra simbologia. Para a religião católica o fogo simbolizava o Espírito Santo, a purificação e expressava vida e luz.
O povo passou a construir estruturas em ferro para formar diferentes desenhos com a forma de ícones da religião católica, como a cruz, o cálice, a custódia, o barco ou os peixes: “Cada desenho representa um sítio de Machico. (…) O povo desenha um rascunho com a forma que pretende aplicar na estrutura, contabilizando o número de “bolas de desperdício” que serão necessárias. Para depois aplicarmos nas estruturas em ferro”.

Esboço da barca da misericórdia Créditos: Joana Brás
As “bolas de desperdício” são o conjunto de restos de fios das fábricas de fiação que se empregam na limpeza de máquinas e que são muito utilizadas nas oficinas, pelos mecânicos de automóveis.
Na semana anterior as celebrações do Santíssimo Sacramento, o povo reúne-se e são confecionadas as “bolas de desperdício”, enroladas num arame fino, que são colocadas num “bidão” (grande recipiente de metal) e são ensopadas com óleo queimado retirado das oficinas do concelho de Machico que posteriormente são distribuídas pelos sítios que participam nesta tradição.
Com o aproximar da hora de acender os fachos, juntam-se milhares de pessoas, que na noite desta tradição invadem os espaços públicos do centro e periferia da Cidade de Machico para assistirem.

População à espera do acender dos fachos Créditos: Joana Brás
“Por volta das 21h, inicia-se a queima dos fachos ao som do toque dos sinos da igreja, e começamos de baixo para cima a queimar as bolas de desperdício”, explica o coordenador da festa dos fachos. Os homens utilizam uma vara comprida, com uma “bola de desperdício” na extremidade, de forma a atear o fogo em todas as outras bolas que estão fixas na estrutura de ferro, que permanecem acesas durante cerca de trinta minutos, dando visibilidade ao desenho.

Povo a acender os fachos Créditos: Joana Brás

Final da queima das bolas de desperdício Créditos: Joana Brás

Finalização da barca do facho de Machico Créditos: Joana Brás
Acesos os fachos, o povo que acendeu desce pelas encostas iluminados com tochas para observar o espetáculo na baía e ser aplaudidos como agradecimento pelos espectadores que esperam no centro de Machico. “É uma sensação inexplicável chegar ao centro de Machico e todos a aplaudir o nosso facho”.
Após o agradecimento, os participantes vão a correr até à praia e todos os anos acabam a tradição com um mergulho no mar, limpando o óleo queimado que têm nos seus corpos devido aos fachos. “Já faz parte da tradição, muitas pessoas esperam na praia só para ver o nosso mergulho”.

Mergulho final Créditos: Joana Brás
“A minha família está ligada aos fachos desde que sou novo e agora faço com os meus filhos e sobrinhos”, explica. Esta tradição atualmente tornou-se, para muitos, uma tradição de família em que o pai que participa leva o filho e o filho consequentemente cresce na tradição e todos os anos torna-se um momento familiar.
Missas do Parto
As missas do Parto na Madeira são uma tradição que se mantém. Estas missas são uma das maiores tradições natalícias das ilhas da Madeira e Porto Santo e os madeirenses não perdem uma missa do parto: “Para mim Natal sem missas do parto não é Natal”, explica Conceição Rodrigues participante desta tradição há vários anos.
Consiste em nove missas celebradas antes do Natal, desde o dia 16 ao dia 24 de dezembro, em todas as paróquias do arquipélago, ao fim da madrugada. Iniciam-se a partir das 5:30 da manhã pelo simbolismo da semelhança com a hora e ambiente em que jesus nasceu e “por este ser a luz que nasce para o mundo”.
Dentro da igreja, entoam-se cânticos tradicionais e populares com algumas variantes de cada paróquia: “Cada pessoa leva um instrumento, é pandeiretas, triângulos, tambor, tudo o que quisermos tocar”, referiu Conceição.

Missa do parto Créditos: Joana Brás
Após a cerimónia, as pessoas reúnem-se no adro da igreja para um convívio e partilham comes e bebes, bebidas quentes, licores, poncha, broas de mel, rosquilhas e sandes de carne vinha-d’alho. Formam-se grupos de cânticos onde se tocam instrumentos musicais regionais, como o rajão, as castanholas, a braguinha, o pandeiro, o pife, o bombo e a gaita: “Se há coisa que não pode faltar é o meu cacau quente e sandes de carne em vinha de alhos depois da missa”, concluiu.

Convívio após a missa do parto Créditos: Joana Brás
Por Joana Brás (aluno do 3ºano, da Licenciatura em Comunicação Social: Jornalismo e Comunicação Empresarial, da Escola Superior de Tecnologia de Abrantes)
