Explorar. Braga não se vê por um canudo

Para conhecer esta cidade que remonta ao tempo dos romanos é preciso muito mais do que o antigo “canudo”, localizado num dos miradouros do monte do Bom Jesus. O pequeno telescópio que deu origem ao conhecido provérbio já nem existe, mas também não comportaria hoje a dimensão de uma cidade reconhecida como moderna e inovadora desde os tempos em que era Bracara Augusta, no século VI a.c.

Explorar Braga é entrar numa viagem no tempo. Sabia que a enorme competitividade entre os habitantes de Braga e de Guimarães remonta à constituição da nação, em 1128? Ambas as cidades reclamam para si o título de “berço de Portugal”, apesar de Guimarães ser ‘oficialmente’ reconhecido como tal. No entanto, os bracarenses discordam e argumentam que é ali, na sua cidade, que se encontra arquivado o documento que atesta o nascimento de Portugal, assinado por D. Afonso Henriques e pelo arcebispo de Braga. Uma contenda que dura há séculos e que, além da história que lhe deu origem, tem hoje muitas outras lendas associadas.

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Mas Braga, também conhecida como a ‘cidade dos cardeais’ pela sua forte ligação à Igreja Católica, tem muito mais para lhe contar. Seja apreciador de história e antiguidade, ou de modernidade e hábitos cosmopolitas, ali encontra um pouco de tudo. E se privilegia uma boa gastronomia, bons vinhos, e gente acolhedora, também não irá arrepender-se de visitar uma das ‘capitais’ do Minho.

Para uma primeira abordagem, e se não tiver muito tempo disponível, reserve um fim-de-semana para explorar Braga. Chegue logo na sexta-feira à noite e aproveite para desfrutar de um belo repasto, num dos muitos restaurantes da cidade. Comer mal é difícil, pelo que a escolha é menos complicada.

Se pretende conhecer os pratos típicos da cidade e da região, não deixe de provar o Bacalhau à Braga, as Papas de Sarrabulho, os Rojões à Minhota, ou o Arroz Pica no Chão. Nos doces, o Pudim Abade de Priscos é obrigatório.

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O centro histórico da cidade merece uma visita prolongada. Foto: Fernando Fernandes/Travel&Taste

No sábado, logo pela manhã, faça um walking tour pelo centro histórico, a melhor forma de ficar a conhecer os recantos mais escondidos das ruas da cidade. Naquele espaço, onde nasceu Bracara Augusta pelas mãos dos romanos, encontrará ainda vestígios medievais, do que resta da cidade dos tempos de D. Afonso Henriques, erguida mil anos mais tarde. A Torre de Menagem é um destes elementos, assim como a Porta Sul, visível mais abaixo, e algumas ruelas estreitas que remontam à mesma época.

Além do apontamento medieval, encontrará muitas referências ao renascentismo, nomeadamente em algumas das 25 igrejas que encontra no centro histórico. A Sé de Braga é, talvez, o maior exemplo desta época, com os seus traços de arte Manuelina.

Provar a cidade

Durante o passeio vá fazendo paragens gastronómicas e prove as típicas “frigideiras” – carne de vaca picada, bem temperada, dentro de massa folhada -, de preferência na Frigideiras do Cantinho, a mais antiga casa a confecionar esta iguaria. O espaço nasceu no século XVIII, mais precisamente em 1796, e até Júlio Dinis lhes fez referência na sua obra “Serões da Província”.

A não perder são também os pastéis de nata da Casa das Natas, considerados os melhores da cidade. Ali poderá encontrar os tradicionais pastéis com açúcar e canela, chocolate ou amêndoa, bem como um conjunto de outras delícias de que é exemplo o pão-de-ló esquecido. Mas se prefere os gelados, não deixe de provar os da Spirito, com sabores variados e diferentes do habitual.

Depois de encher a barriga com as iguarias bracarenses, continue a pé pelas ruelas da cidade não deixando de visitar a conhecida Casa das Bananas. O aparentemente estranho nome, para uma loja que hoje nem sequer vende bananas, tem uma explicação simples. Criada em meados do século XX, nesta casa vendiam-se, de facto, bananas. O dono importava a fruta da Madeira e comercializava-a ali com grande sucesso. Mais tarde, contudo, o negócio deixou de prosperar e, numa tentativa de diversificar, o filho do fundador iniciou a venda de vinho moscatel. Assim nasceu a tradição de, uma vez por ano, durante os festejos do ‘Natal do Bananeiro’, os bracarenses saírem à rua para beber moscatel e comer bananas.

Braga

As lojas de produtos locais e regionais, assim como os restaurantes, fazem do centro um local digno de passeio

Passeie ainda pelas ruas recheadas de lojas de roupa, sapatos, acessórios e ourivesarias e faça algumas compras. Braga é conhecida pela forte aposta no comércio tradicional e pelos bons preços.

Passe ainda pela Praça do Município e pelo Arquivo Municipal de Braga, onde pode apreciar o jardim florido que o rodeia. Nas traseiras do edifício, no Largo do Município, poderá encontrar pequenas feiras, consoante a época do ano. Por exemplo, a 1 de novembro, a Praça enche-se de flores e a procura é grande pois a data celebra o Dia de Todos os Santos.

Da parte da tarde continue a explorar Braga e vá até ao Monte do Bom Jesus. Suba no elevador – o mais antigo do mundo movido a água -, e veja as vistas sobre a cidade. Para baixo desça as escadas que partem do santuário.

Se quiser jantar ainda no monte, aproveite para conhecer o restaurante Dona Júlia, situado no interior do Hotel Golden Tulip. De gastronomia típica da região, onde os petiscos são reis, este é daqueles restaurantes que vale mesmo a pena visitar.

Já se preferir usufruir da vista, deixe a experiência gastronómica na Dona Júlia para o almoço de domingo. É preciso algum tempo e um estômago corajoso para conseguir desfrutar de um pouco de tudo que ali encontra.

À noite aproveite para conhecer alguns dos bares e discotecas de Braga, onde a animação é uma constante. Se preferir um serão mais calmo, beba um café na Brasileira (centro histórico) e descanse as pernas depois de um dia recheado de caminhadas.

No domingo opte por descansar ou por passear um pouco mais pelas ruas da cidade. Se for de carro não deixe de visitar Guimarães (a cerca de 30 quilómetros), uma cidade que, tal como Braga, vale a pena explorar.